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26 Março 2026

Moagem do Loreto: 100 anos de resiliência a evoluir com o tempo num ofício com futuro

Moagem do Loreto: 100 anos de resiliência a evoluir com o tempo num ofício com futuro

Luís Afonso é o atual proprietário da Moagem do Loreto. O herdeiro da família Afonso adquiriu a totalidade da unidade fabril em 2013. Fotografia Pedro Alves/Palombar.

REPORTAGEM
por Uliana de Castro | Fotografia Pedro Alves

Projeto LIFE SOS Pygargus atribui Certificado de Reconhecimento à moageira transmontana pelo centenário e importância estratégica

A força bruta que transforma o grão em pó e alimenta com o pão de cada dia é também a mesma que mantém de pé, há 100 anos, a Moagem do Loreto, a primeira fábrica a laborar na cidade de Bragança. A empresa fabril, de raiz familiar, comemora o centenário no dia 26 de março de 2026 e é um dos últimos bastiões da indústria moageira no interior do país. Do movimento das águas, nos primórdios do séc. XX, para a combustão do gasóleo, na década de 1920, passando para a eletricidade e as energias renováveis, no presente, a engrenagem evoluiu e nunca parou. Da horizontalidade dos campos semeados, onde o grão cresce, para a verticalidade dos silos, onde o grão se acumula, os cereais sempre circularam em abundância na maquinaria da unidade fabril brigantina do Loreto.

Mas o rolo compressor da história e, sobretudo, do desinvestimento público, despiu, década após década, os campos de cereais, alterou os destinos da agricultura em Trás-os-Montes e das populações, impulsionando o êxodo rural. Hoje, a matéria-prima de proximidade, os grãos das searas transmontanas, que sustêm a produção moageira regional, escasseiam ou inexistem. Este é um dos principais desafios do presente e do futuro da Moagem do Loreto. O projeto LIFE SOS Pygargus, coordenado pela Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural e financiado em 75% pelo programa LIFE da União Europeia, quer virar as quilhas do destino e contribuir de forma decisiva para um porvir que se deseja promissor para a agricultura cerealífera nacional, em particular no Norte do país, para o setor da moagem, para as pessoas e para a biodiversidade.


A Moagem do Loreto, a primeira unidade fabril a laborar na cidade de Bragança, é um dos últimos bastiões da indústria moageira no interior do país. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


Nasceu intrincada no rio, iluminou caminhos e alimentou em tempos de guerra


Foi no início do século XX, por volta de 1908 que, nas margens do rio Fervença, no Loreto, zona central e histórica da cidade de Bragança, nasceu o primeiro núcleo edificado que está na origem do que viria a ser a Moagem do Loreto. Alexandre Afonso, natural da aldeia de Refoios, e avô de Luís Afonso, sócio herdeiro que hoje é o dono e comanda os destinos da moageira, foi o grande impulsionador e criador da unidade fabril, que entrou em funcionamento a 26 de março de 1926. A empresa, oficialmente denominada por Afonso, Lopes & Cia, Lda., mas que também é conhecida e atua no mercado com o nome e a marca Moagem do Loreto, trabalha de forma ininterrupta desde a sua fundação.

“Foi o meu avô que iniciou a atividade da moagem de cereais precisamente aqui neste lugar onde nos encontramos, primeiro com um sistema de moagem muito pequeno, que depois cresceu”, explicou o empresário Luís Afonso, que nos recebeu com uma simpatia genuína nos escritórios da unidade fabril, no mesmo espaço onde o avô trabalhou décadas a fio, envolto pelas mesmas mobílias centenárias que atestam o valor histórico do lugar.


Luís Afonso nos escritórios centenários da unidade fabril. A primeira fotografia emoldurada na parede verde é do avô Alexandre Afonso, que fundou a Moagem do Loreto em 1926. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


Cereais: variedades nativas, características autênticas


Na primeira metade do século XX e nas décadas iniciais da segunda, os grãos das searas transmontanas eram abundantes, os silos estavam sempre cheios e a moageira sorvia os cereais da região, com variedades nativas (como o rústico e ancestral trigo Barbela), características únicas, qualidade de excelência e proximidade que permitia reduzir custos de produção. A unidade trabalhava a todo o gás; a combustão do gasóleo era a força motriz. A energia gerada até excedia as necessidades e tempos houve em que a moageira chegou mesmo a destinar parte da produção energética da fábrica para iluminar os caminhos e as ruas da cidade.

“Recordo-me de o meu tio, que esteve na moageira até falecer, contar que, na altura, os motores da fábrica, com a dinâmica de movimento, produziam eletricidade para alimentar a maquinaria da moagem e a energia sobrante era introduzida na rede pública e iluminava as ruas do Loreto. Depois, foi construída, aqui, em Bragança, no rio Fervença, uma central hidroelétrica e, a partir daí, começou a eletrificação mais generalizada da cidade”, recorda Luís Afonso, lembrando-se dos tempos em que a empresa também já prestou serviço público.

A Moagem do Loreto produz farinha de alta qualidade e é especializada na produção de farinha de centeio. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


Farinha de qualidade excecional e sabor autêntico, centeio único


A farinha de alta qualidade que saía (e continua a sair) da Moagem do Loreto era (e é) um produto autêntico e pleno de sabor, com propriedades únicas para o fabrico alimentar e para o paladar. A de centeio, considerada a melhor de Portugal e a especialidade da casa, e a de trigo, forneceram sempre as padarias locais e regionais de Trás-os-Montes, e também do Minho, que produziam (e produzem) o melhor pão regional que chega à mesa dos que têm o privilégio de o provar.

“Esta fábrica tem uma salvaguarda muito específica e que ainda se mantém até hoje que é ser muito especializada na produção de farinha de centeio. Somos a moageira que faz a melhor farinha de centeio de Portugal. É uma farinha muito conceituada”, sublinha Luís Afonso.

O fabrico de pão também já foi obra da Moagem do Loreto. O povo a clamar por sustento durante a crise alimentar gerada pela Segunda Guerra Mundial, na década de 1940, beneficiou da solidariedade da moageira. A regra oficial que impunha, na altura, uma senha de pão por família, o avô Alexandre Afonso transgrediu; ofertava as que eram necessárias, em função do tamanho das famílias. Foi preso por isso, mas o povo insurgiu-se e libertou-o. Em tempos de guerra, o pão alimenta e o povo salva.

A moageira é um ícone fabril da cidade. Labora na urbe e a ligação umbilical à terra e a quem dela tira o seu sustento é forte, marcando, desde a origem, a dinâmica económica e social da região.

As searas que desaparecem, a matéria-prima que escasseia

A segunda metade do século XX ficou marcada pelo desinvestimento público na agricultura cerealífera em Trás-os-Montes, que se intensificou sobretudo no final do milénio, nas décadas de 80 e 90. Pouco a pouco, o grão quase deixou de ser semeado, as searas praticamente desapareceram dos montes, planícies e planaltos transmontanos, restando apenas poucos nichos, e os silos tornaram-se peças de museu a céu aberto, atirados ao esquecimento e condenados à ruína, avivando apenas a memória dos tempos de faina e fartura.


Os grãos das searas transmontanas que "alimentavam" a moageira começaram a desaparecer sobretudo no final do século XX. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


A progressiva abertura aos mercados externos, a liberalização do mercado de cereais e a entrada de Portugal na então CEE – Comunidade Económica Europeia, em 1986, impôs transformações profundas e outras regras de comércio, produção e consumo, agudizando o desinvestimento público de anos anteriores e ditando a extinção de estruturas-chave do Estado para o setor, como a EPAC - Empresa Pública de Abastecimento de Cereais, no fim da década de 90, que começaram a desmoronar como um baralho de cartas.

“Antigamente, havia muito cereal à volta de Bragança, centeio e trigo. Os silos da EPAC que estavam aqui na cidade chegavam a encher. Houve um ano em que se acumularam nos silos 21 milhões de quilos de cereais”, recorda o empresário. Agora são uma raridade.

A par disto, a transposição de barreiras geográficas que dificultavam a ligação ao litoral, como a Serra do Marão, com a multiplicação de túneis e autoestradas interior adentro, também alteraram as dinâmicas: a concorrência com as grandes indústrias mais próximas do mar aumentou e a oferta de matéria-prima vinda de fora, não tão autêntica e local, nem com tanta qualidade, mas mais barata, também. Adicionalmente, o êxodo populacional progressivo alargou as distâncias e reduziu o mercado consumidor local e regional.


O afastamento da matéria-prima da unidade fabril aumentou os custos de produção com o passar dos anos. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


Para não sucumbir devido ao grão que cá não havia, a Moagem do Loreto foi obrigada a procurar outras geografias. Virou-se para leste, em Espanha, para ir buscar o centeio, e para oeste, no mar, para ir buscar o trigo panificável aos portos do litoral. Isto significou muitos quilómetros a mais na procura pela matéria-prima, muitos mais gastos e menos capacidade competitiva.

“Hoje, é bem mais difícil manter a moageira a trabalhar do que era há 40, 50, 60 anos. Por tudo o que aconteceu: o abandono da agricultura, o afastamento da matéria-prima da fábrica, o despovoamento do interior, o que implica menos consumidores e mais longe. Portanto, tudo isto funciona negativamente para nós e favoravelmente para outras indústrias maiores do litoral”, explica o empresário.

A resiliência é a força para sobreviver à adversidade

Num contexto desfavorável, a resiliência é a força para sobreviver à adversidade. A Moagem do Loreto continua a laborar 100 anos depois. Ainda há agricultura e agricultores nas terras transmontanas, são essenciais e cada vez mais precisos. Os campos e a paisagem aguardam no tempo e no espaço pelo reavivar da agricultura cerealífera, por quem aposte e acredite no setor, na região e no país, pela maquinaria com tecnologia de ponta, pelos silos que se podem voltar a erguer e a encher.

O herdeiro da família Afonso adquiriu a totalidade da unidade fabril em 2013, numa altura em que o fim da fábrica já era um destino certo, depois da decisão de encerramento tomada numa reunião da Assembleia Geral da empresa realizada em 2012. Luís Afonso não quis deixar a moageira cair. Acreditou, apostou e avançou. Desde então, já investiu milhões de euros na modernização da fábrica para otimizar processos de fabrico e diversificar a oferta de produtos.

Atualmente, a Moagem do Loreto produz farinha para panificação tradicional e industrial, confeitarias e pastelarias, bem como rações para animais. A fábrica conta com 11 trabalhadores e produz 500 toneladas de farinha por mês. Os clientes são principalmente das regiões de Trás-os-Montes e do Minho, com alguns específicos no litoral. Vende ainda para a vizinha Espanha, nomeadamente para a região da Galiza.


Atualmente, a Moagem do Loreto tem 11 trabalhadores e produz 500 toneladas de farinha por mês. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


Construir, juntos, um futuro promissor para as searas e a biodiversidade


Numa visão estratégica para o presente e o futuro da indústria moageira, Luís Afonso considera fundamental apostar na colaboração multissetorial, que envolva o Estado, organizações de agricultores e da panificação, organizações não governamentais de conservação da natureza, de consumidores, de retalhistas, entre outras. Unir esforços e atores que atuam nas diversas áreas ligadas ao setor cerealífero é fundamental para realavancar a produção de cereais.

“É essencial haver uma estratégia multissetorial. Se houver parcerias, sobretudo com o setor mais importante que é o da produção, com uma organização de produtores de cereais, para nós é fundamental até para a manutenção da existência da fábrica depois dos 100 anos. Porque se não houver produção local ou regional, e a produção se for gradativamente afastando da moagem, perdemos margem e competitividade até desaparecer”, considera Luís Afonso.

Valorizar os cereais e a produção nacional

Distinguir os cereais únicos que são produzidos na região, seguindo práticas que permitem conservar a biodiversidade, em especial o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), a rapina icónica das searas que está em risco de extinção, assim como os cereais cultivados em Trás-os-Montes, é fulcral.


Tartaranhão-caçador a sobrevoar uma área junto aos antigos silos da EPAC, em Mogadouro, Trás-os-Montes, outrora sempre cheios. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


“O nosso centeio é de alta qualidade. O grão tem mais peso, dá mais e melhor farinha. E, portanto, temos aqui uma mais-valia que é a qualidade do produto. Tínhamos, e podemos voltar a ter, em escala, o Barbela, um trigo especial com características organoléticas únicas, com mais paladar e aroma”, frisou o empresário, acrescentando que “a EPAC, na altura, quando ia a concursos internacionais de cereais, o centeio de Trás-os-Montes, da Terra Fria, era considerado o melhor centeio do mundo”.

Valorizar a farinha e o pão únicos no mundo que cá se fazem, através de uma certificação, é outro passo chave. "Uma marca nacional de cereais forte e também um pão certificado para a região podem acrescentar valor e fazer a diferença para o agricultor, a panificação e a indústria de moagem. Era importante haver uma certificação, que não há, para distinguir e valorizar o pão de Trás-os-Montes, produzido com cereais locais, com farinha única feita cá", afirma Luís Afonso.

O projeto LIFE SOS Pygargus quer trabalhar em estreita colaboração com a indústria moageira, e em toda a fileira do setor cerealífero, para promover paisagens agrícolas mais produtivas e resilientes, e com maior equilíbrio e biodiversidade.


“O nosso centeio é de alta qualidade. O grão tem mais peso, dá mais e melhor farinha. E, portanto, temos aqui uma mais-valia que é a qualidade do produto." - Luís Afonso. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


“No contexto em que vivemos, de crise climática e de biodiversidade, por um lado, e de instabilidade geopolítica, por outro, com guerras atrás de guerras que geram crises de combustível e alimentares, a soberania e segurança alimentares e a resiliência do território, assim como a conservação de muitos valores naturais reside na agricultura nacional rejuvenescida e mais sustentável. O projeto quer impulsionar a produção cerealífera em Portugal para salvar uma ave da extinção, o tartaranhão-caçador, o seu habitat e outras espécies de fauna e flora a ele associados, contribuindo para uma maior qualidade de vida para as comunidades locais. Campos mais biodiversos têm mais futuro, para a natureza e para as pessoas”, afirma Joaquim Teodósio, coordenador do LIFE SOS Pygargus e técnico de conservação da natureza na Palombar.

Cultivar cereais adaptados ao Norte, organizar a produção

No âmbito do projeto, estão a ser realizados ensaios pelo INIAV - Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, em colaboração com a CCDR-Norte - Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, com vista a selecionar variedades de cereais mais resistentes e adaptadas à região Norte e ao ciclo reprodutivo do tartaranhão-caçador, uma rapina que nidifica no solo das searas e cuja ceifa mais tardia aumenta o sucesso da reprodução. São variedades que contribuem para práticas agrícolas regenerativas e com maior valor acrescentado. O projeto, através da ANPOC - Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais, parceira do LIFE SOS Pygargus, está igualmente a impulsionar a criação de uma organização de produtores de cereais no Norte do país.


O projeto LIFE SOS Pygargus está a realizar ensaios para testar 20 variedades de cinco cereais: trigo mole, trigo barbela, centeio, aveia e triticale. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


A aposta é forte para que o grão volte a ser abundante nas terras transmontanas, dinamize a agricultura cerealífera regional e nacional e alimente quem cá vive, aumentando o habitat disponível para o tartaranhão-caçador e potenciando a sustentabilidade ambiental, contribuindo para uma maior estabilidade económica e social no país.

Um Certificado de Reconhecimento para celebrar o centenário e a importância estratégica da indústria moageira

Em reconhecimento pelo centenário da Moagem do Loreto, o projeto LIFE SOS Pygargus decidiu atribuir um Certificado de Reconhecimento à empresa fabril, que será entregue a Luís Afonso.

“O projeto decidiu atribuir este certificado à Moagem do Loreto pela capacidade de resiliência ao longo do tempo, mantendo-se ativa num século de história, apesar de todas as adversidades, bem como pelo papel estratégico que o setor moageiro tem para toda a cadeia produtiva ligada aos cereais e à conservação do tartaranhão-caçador”, refere Miguel Nóvoa, da direção da Palombar.


Na Moagem do Loreto, onde o grão se transforma em alimento, também reside o futuro da produção cerealífera regional e o futuro do tartaranhão-caçador. Fotografia Pedro Alves/Palombar.


Uma mensagem para quem vive da (e na) terra


A propósito do certificado que o projeto lhe vai conceder e dos 100 anos, Luís Afonso deixa uma mensagem: “Ânimo e confiança. É preciso juntar todas essas peças para garantir que vale a pena voltar a semear cereais em Trás-os-Montes. Para voltarmos a ter renda, riqueza, proteção da floresta, do ambiente, da fauna, do tartaranhão-caçador e da ecologia da região. Porque é preciso existir agricultura local e regional e alimentos para haver, de facto, tudo isto. E para que, pelo menos, mais outras três gerações possam vir a seguir na moageira”, conclui.

Na Moagem do Loreto, onde o grão se transforma em alimento, também reside o futuro da produção cerealífera regional e o futuro do tartaranhão-caçador. Para quem maneia a terra, para quem protege espécies em risco de extinção, para quem alimentos consome, em suma, para todos nós, a força está na união e na vontade coletiva. O futuro será o que nós, enquanto sociedade, quisermos que seja.