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10 Maio 2025

Tartaranhão-caçador: ovo resgatado a "pulsar" vida é esperança para o futuro da espécie

Tartaranhão-caçador: ovo resgatado a

Embrião de tartaranhão-caçador no interior do ovo, visto através da técnica de ovoscopia. Fotografia Filippo Guidantoni/Palombar.

Dia Mundial das Aves Migratórias

No Dia Mundial das Aves Migratórias, assinalado este sábado, 10 de maio, revelamos uma história emocionante de um "ovo sobrevivente" de tartaranhão-caçador (Circus pygargus), uma ave migratória em risco de extinção em Portugal, com um embrião que "pulsa" vida e é um símbolo de esperança para o futuro da espécie.

No âmbito da campanha "Salvar o tartaranhão-caçador", ocorreu, em 2024, uma situação excecional de emergência, na qual a organização não governamental de ambiente Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural teve de intervir para tentar salvar o que restava de um ninho da espécie num campo agrícola já ceifado, localizado no Planalto Mirandês, no concelho de Miranda do Douro. Na altura, o técnico Filippo Guidantoni da Palombar deslocou-se com urgência ao terreno e conseguiu resgatar o único ovo, o qual aparece neste vídeo, que resistiu à destruição involuntária do ninho por desconhecimento do agricultor de que ali se encontrava.

Após verificar que o ovo "sobrevivente" já estaria há muitas horas sem ser incubado pela progenitora, que tinha abandonado o local, a esperança era pouca de que pudesse ser viável. Contudo, não desistimos! Com recurso à técnica de ovoscopia, o técnico Filippo verificou que ainda havia vida… a esperança renasceu! É o que se pode ver no vídeo, o embrião a mexer-se no interior do ovo, o qual foi transportado, de imediato, para o Centro de Recuperação de Animais Selvagens da Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro (CRAS-UTAD).

Único ovo resgatado. Fotografia Filippo Guidantoni/Palombar.


A incubação deste ovo foi concluída no CRAS-UTAD, a cria nasceu e foi, depois, transferida para a estação de aclimatação (onde decorre a adaptação ao meio natural e potencia-se a fidelização ao território) instalada no Planalto Mirandês, na aldeia de Duas Igrejas, no concelho de Miranda do Douro. Posteriormente, foi devolvida à natureza e à liberdade. Em setembro de 2024, esperamos que, se tiver sobrevivido com êxito após sair da estação, possa ter conseguido migrar para África, onde inverna, como todos os indivíduos da sua espécie. Desejamos que sim, e que o tenhamos por cá este ano e nos anos vindouros.

Continuamos com a campanha, agora integrada no projeto LIFE SOS Pygargus, a salvar o tartaranhão-caçador, a salvar muitas vidas como esta, que "pulsam" de esperança e nos dão força para continuar a travar a sua extinção, para que permaneça no seu território histórico e perdure.

Sobre o tartaranhão-caçador

Esta espécie migratória tem um estatuto de ameaça “Em Perigo” em Portugal e corre o risco de desaparecer. A sua população diminuiu 80% em dez anos. Inverna em África e regressa a Portugal na primavera para nidificar, permanecendo nos territórios de reprodução até setembro, quando retorna ao continente africano. O tartaranhão-caçador nidifica no solo, sobretudo em campos agrícolas e zonas de mato e tem como principais ameaças a perda de habitat, alterações no uso do solo e nas culturas agrícolas, nomeadamente redução drástica da área cultivada com cereais para grão. Está também cada vez mais exposto a predação, seja por animais selvagens ou domésticos.


Tartaranhão-caçador macho. Fotografia Filippo Guidantoni/Palombar.


A campanha


A campanha "Salvar o tartaranhão-caçador" arrancou em 2022 no âmbito do projeto "Searas com Biodiversidade: Salvemos a Águia-caçadeira", desenvolvido pela Palombar, BIOPOLIS-CIBIO, Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas (ANPOC) e Clube de Produtores Continente. Foi agora integrada no LIFE SOS Pygargus.

A campanha, articulada com outras medidas mais abrangentes e multissetoriais, está centrada na monitorização desta espécie nos seus principais territórios de distribuição na Península Ibérica; na identificação de ninhos, com vista a garantir a sua proteção; no resgate de ovos e crias em ninhos cuja proteção não é possível, e na sensibilização e envolvimento dos agricultores, cuja colaboração é essencial para o êxito destes esforços.


Ninho protegido com fêmea de tartaranhão-caçador pousada na estrutura de proteção. Fotografia Palombar.


O projeto LIFE SOS Pygargus


LIFE SOS Pygargus é um projeto ibérico que tem como objetivo principal travar a extinção iminente do tartaranhão-caçador em Portugal e na parte ocidental de Espanha e garantir a sua conservação a médio e longo prazo. Conta com financiamento do Programa LIFE da União Europeia (75%) e cofinanciamento da Viridia – Conservation in Action, Lightsource bp e Fundo Ambiental. É implementado por um consórcio que integra a Palombar (entidade coordenadora), Associação BIOPOLIS-CIBIO, AEPGA - Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino, ANPOC, CCDR-N - Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, EDIA - Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva SA, ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, INIAV - Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, LPN - Liga para a Protecção da Natureza, MC Shared Services SA, Modelo Continente Hipermercados SA, SPEA - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, UTAD - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vita Nativa - Conservação do Ambiente, AMUS - Acción por el Mundo Salvaje, Consejeria de Agricultura, Ganaderia y Desarrollo Sostenible - Junta de Extremadura, GREFA - Grupo de Rehabilitación de la Fauna Autóctona y su Hábitat e Universidad de Murcia.